domingo, 6 de maio de 2012

O dia que em Deus morreu


           Todos acreditam que ele é a única pessoa no mundo que não teria que provar nada a ninguém. Qualquer um que entenda o mínimo de futebol não tem dúvidas sobre quem foi o maior jogador da história. Ninguém superou, e nunca vai superar o rei. Não importa quantos gols façam, quantos títulos ganhem. A mágica que ele colocava no jogo não se aprende nas categorias de base ou escolinhas de futebol. Você nasce rei, e Pelé será o maior de todos, para sempre.
            No fundo Pelé sabe que foi o maior. Tanto que não consegue acreditar que a pessoa que habita aquele corpo hoje seja mesmo o Pelé. Hoje ele é Edison, um qualquer que vive falando besteiras nos jornais. O Pelé é Deus, uma entidade acima de qualquer definição. Existe apenas na história, quase uma alucinação coletiva que conquistou mais de 60 títulos ao longo dos 24 anos de carreira.
            Mas existe um detalhe na carreira de Pelé que o Edison faz questão de esconder. A humilhação da derrota, que atinge todos nós mortais, um dia também fez Deus de vítima. Ele morreu em Brasília, dentro de um campo de futebol. Foi massacrado, humilhado. E Deus não falha, nunca. Se hoje existe apenas o Edison, há um motivo: o FAC GOL.
            O ano de 1979 começou mal. O mau agouro de Deus teve início logo quando aquele tal do Figueiredo assumiu a presidência. “Onde já se viu um militar brando desse jeito? A ditatura só vai piorar daqui pra frente” – pensou. Bons tempos de um Médici que não volta mais. Além disso, o tédio já começava a incomodar. Há 2 anos que ele encerrara a carreira, e o dinheiro acumulado durante todo aquele tempo trazia as mesmas coisas entediantes de sempre. Movido por desafios, Pelé queria algo novo, mas como achar um desafio para o homem que ganhou tudo que disputou? Tudo parecia tão sem graça e repetitivo. 

            Foi então que durante um almoço com o locutor esportivo e grande amigo Fiori Gigliotti, que Pelé soube do evento que mudaria sua vida para sempre. Um torneio no interior do Brasil estava chamando a atenção dos jornalistas de todo o mundo. Era um campeonato de um curso de Comunicação, perdido no meio do cerrado. Pelé gargalhou só de imaginar a ideia de jogar com um monte de amadores. Logo ele, o maior de todos, jogando um campeonato de faculdade. 

            Gigliotti colocou os cotovelos sobre a mesa, e olhou Pelé gargalhar por longos minutos. Quando finalmente se calou, o locutor ergueu-se, jogou o dinheiro da conta que lhe cabia no prato, e disse: 
            - Cuidado Pelé, a soberba é a dianteira do fracasso. 

            Então Deus ficou em silêncio. Gigliotti o conhecia muito bem, não falaria isso por acaso. Talvez estivesse em Brasília o desafio que tanto procurava. Não teve dúvidas: saiu do restaurante direto para o aeroporto de Congonhas.

                Desembarcou na capital e entrou no primeiro táxi que viu. Tinha pressa, queria ver com os próprios olhos que campeonato era esse que os jornalistas tanto falavam. Infelizmente teve que esperar alguns minutos, até que o taxista conseguisse arrancar com o carro e acostumar com a ideia que a corrida seria paga pelo rei do Brasil.
            Nas proximidades do campus, Pelé viu ao longe as luzes do estádio Darcyzão. A fumaça provocada pela torcida dava a impressão que estava chegando perto de um vulcão. Logo ele, que entrou nos maiores estádios do mundo, voltava a sentir medo ao entrar no acanhado estádio da UnB.
            O Darcyzão foi por muito tempo o maior estádio do DF, até a construção do Mané Garrincha. Localizado onde hoje foi erguido o pavilhão Anísio Teixeira, tinha capacidade para 25 mil torcedores. Era temido pelos adversários por deixar a torcida a menos de 10 centímetros do campo, fazendo uma pressão infernal.
            Ao entrar no estádio, Pelé compreendeu por que falavam tanto do tal FAC GOL. A atmosfera do estádio era incrível, a torcida parecia delirar durante os jogos. E esse delírio era causado em grande parte pelo maior jogador brasiliense de todos os tempos: David Renault, o Renôzinho.
            Uma partida bastou para Pelé ver a magia de um menino esguio, rápido, de dribles curtos. Jogava de cabeça erguida, acelerando o jogo com lançamentos precisos. A cada vez que corria, ficava mais vermelho, parecendo que sua cabeça iria explodir a qualquer momento. Entendeu pela primeira vez o fascínio que ele mesmo exercera nos milhões de torcedores em todo o mundo. O futebol era mesmo mágico.
No dia seguinte Pelé se inscreveu no FAC GOL, para mostrar a todos que seria, para sempre, o maior jogador de todos os tempos.
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A final:
Pelé não encontrou dificuldades no início do torneio. Fez 13 gols em 8 jogos, e ajudou a equipe da secretaria da FAC a chegar à final. Do outro lado, estaria a equipe de edição de textos, capitaneada por Renôzinho.
O Darcyzão estava lotado, como sempre. A imprensa do mundo todo estava reunida em Brasília. Pelé estava dentro do vestiário, sentindo a pressão que vinha das arquibancadas. Percebeu que naquele momento ele resgatara o que veio buscar em Brasília. Estava sonhando de novo. Sentiu-se como os milhares de imigrantes que vieram a Brasília para buscar uma nova vida. Dentro do vestiário do Darcyzão, Deus encontrou um novo motivo para viver. Era o único título que não tinha em seu currículo, e nada poderia detê-lo.
 A partida foi tensa do início ao fim, com muitas faltas e cartões para as duas equipes. Pelé tinha atuação apagada, mas Renault também sofria forte marcação dos zagueiros adversários. Quando o jogo parecia estar fadado aos pênaltis, aconteceu o lance que mudaria a vida de Deus. David Renault recebe a bola no meio campo e avança. Passa por 3 marcadores com dribles curtos. Pelé sabe que o jogo está acabando, e volta para ajudar na marcação. David avança livre, sem marcação. Passa então pelo último homem do time, e corre livre para o gol adversário. O problema é que David não percebera a presença de Pelé, que estava em seu encalço, pronto para roubar-lhe a bola. Pelé correu mais que Renault, e quando chegou perto para desarmá-lo, Renôzinho aplicou-lhe um drible por entre as pernas, deixando Deus caído no chão.
Renôzinho avançou, tocou na saída do goleiro, e fez o gol do título. Logo após o lance, o juiz apitou o final da partida. Pelé viu David Renault correndo com a taça, triunfante. O melhor de todos os tempos foi humilhado na frente de uma multidão. O sonho de ganhar o único título que não tinha estava acabado. Pelé permaneceu sentado no gramado, e chorou.
Naquele momento, Deus estava morto.
Um Deus que se preze nunca seria humilhado daquela forma. Agora ele seria mais um mortal que saiu de uma pequena cidade em busca de seus sonhos, contando uma história qualquer. Nenhum de seus três corações estava suportando a dor.
Pelé era, de novo, Edison.




 
Renault aplica drible desconcertante em Pelé





Pelé não esconde a dor após a derrota histórica no FAC GOL 79

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